A chuva de verão tinha sido torrencial naquela tarde: em pouco mais de uma hora, o húmus encharcara e a grama tingia-se dum verde limpo, pouco a pouco, à medida que o sol reaparecia. Ao passo que o silêncio e a claridade se tornavam patentes na janela, o pai convida aos filhos pequenos e à esposa para ver se há arco-íris.
Enquanto os quatro caçam o espetáculo em meio às nuvens, o menor inquere sem tirar os olhos do céu:
– Por que nem sempre tem arco-íris?
O pai, professor de ciências, pensa em como explicará ao pequeno duma forma honesta e simples. Após alguns instantes, declara:
– As gotas de chuva são como um espelho especial: além de fazerem a luz voltar quando ela bate nele, como o espelho do banheiro, as gotas espalham a luz em cores diferentes - que nem as gotas de sabão, lembra? – o garoto acena afirmativamente com a cabeça. – E, assim como para vermos algo no espelho precisamos olhar para ele, para vermos o arco-íris precisamos olhar para onde as gotas de chuva estão. Porém, para vermos ele, o sol precisa estar atrás de nós, para que a luz dele venha por trás de nós – o pai gesticula enquanto fala – bata nas gotas de chuva e venha até nosso olho.
Atônito e um pouco contrariado, o pequeno reflete nas palavras do pai; fica de costas para o sol, olha para as nuvens e – de fato, lá está ele: suave e efêmero, a bela tarja multicor encanta-o como um presente de natal. Confuso, então, o pequeno desabafa:
– ‘Tá, pai, mas por que não tem sempre depois da chuva?
O pai, captando a ênfase da dúvida do filho, esclarece:
– Porque nem sempre o sol está do outro lado! Se a chuva fosse para lá – o pai aponta para o lado do poente – então não haveria arco-íris para ver.
O menino possui ainda um pouco de insatisfação com aquilo que sentia uma complicação paterna:
– A chuva não pode seguir o sol, então? – simplifica o garoto.
– Isso! – rende-se o pai, finalmente.
Após breve contemplação, três entram de volta em casa, exceto o pequeno menino, que continua a contemplar o fenômeno óptico. Ao passo que ele esvanece com as nuvens, o menino reflete se tudo que é belo e simples é, na verdade, tão complicado como seu pai enxerga as coisas. Seriam também assim o verde das folhas, o azul do céu, o macio do gato ou o calor de sua mãe?
– Meu arco-íris parece mais bonito – pensa o garoto, mas não sem contrariedade. Afinal, ele sabia, só o tinha visto por que seu pai o ajudara.
Finalmente entediado, ele entra em casa e logo sente vontade de brincar de carrinho. Passa por seu irmão e pensa em convidá-lo, mas ao ver que está a estudar, desiste, e a vontade esfria um pouco. Cogita seu pai, mas por estar fazendo “coisas de escola”, logo a vontade amorna. Chega de mansinho na mãe, mas ela está fazendo a janta – sua vontade, então, esfria de vez… Ele vai só, então, ao quarto inventar suas histórias.
Ao sair da cozinha e chegar ao corredor que leva ao seu quarto, o menino displicentemente estende o braço e deixa os dedos deslizarem na parede, à medida que se afasta da sala e, consequentemente, da família. Entra no quarto e mexe na caixa de brinquedos, selecionando quais usará, à medida que este ou aquele lhe despertam a atenção e a vontade de criar se aquece novamente. Ali, então, ele se rende às suas histórias – mas estando só, a vontade, ainda que morna, era sem gosto; parece ter sido requentada no forno microondas…
Ele tira os olhos um momento dos carrinhos e olha horizontalmente à frente: e o menino se descobre no espelho. Olha seus cabelos desgrenhados, a silhueta de seu rosto, sua roupa de “ficar em casa”, suas mãos soltas – e se vê. E se percebe, triste.
Ele retorna à sala, toma coragem e pede colo ao pai. Ao conceder, o pai lhe abraça e ele fica quietinho ali sentado. Depois de uns momentos, o menino indaga:
– Pai, como é mesmo aquilo que tu disse estes dias, que aquele ursinho do livro sentiu quando ficou sozinho?
Após refletir um pouco, o pai recorda e confirma:
– “Solidão”?
– É! – confirma o filho – Isso é que nem o arco-íris.
O pai, abismado e confuso com a revelação, pergunta por que ele achava isso, ao que o garoto responde:
– Porque quando eu ‘tava sozinho no quarto, me olhando no espelho, eu fiquei triste. A gente precisa ficar longe da família pra ficar sozinho. O arco-íris não é assim também? Pra sentir solidão, a gente precisa ficar sozinho olhando no espelho, depois de sair pra longe da família. O arco-íris também só aparece quando as gotas de chuva vão pra longe do sol, né? Tu disse que as gotas de chuva são um espelho, né?
O pai se rende à lógica do filho:
– Tu tem razão… – fala em voz alta para o filho à medida que expira uma pequena angústia; abraçando-o, o pai beija-o nos cabelos, como sempre costuma fazer e deixa ele descer suavemente do colo.
Foi assim que, no seu coração, o menino havia visto dois arco-íris naquele dia: um, colorido no céu, e mais um, cinza, no quarto – mas ele só tinha gostado do primeiro.