O despertador toca, mas Marcos não tem motivo para se destapar e se vestir. É terça-feira e, apesar de ter um emprego, sentia que sua função fora esvaziada – não pelo RH, nem por demanda ou solicitação externa, muito menos por mudanças no mercado de trabalho, mas pelo que julgavam os outros quem ele seja: uma suposta ameaça à moral pessoal. Mas ele, claro, só sabia disso um tanto inconscientemente, uma mera suspeita.
Mirou um opilião no canto do quarto: o aracnídeo tinha diligentemente enroscado algum inseto em sua teia; uma visão cinza, estupidamente óbvia, tediosamente simples e misteriosamente rancenta: a exata e precisa sensação que a inveja alheia sempre lhe provocou.
Ele nunca entendeu este sentimento para além do óbvio – pobre criança – e por isso mesmo dela nunca suspeitava poder ser origem de mal que lhe afligisse. Afinal, o comportamento de pessoas abaixo da linha da mediocridade ao atingirem a mínima consciência de si mesmas (da que são capazes) nem sempre é o da mesquinhez. Enquanto algumas associam-se a alguém a quem veem superior para crescer como puderem, outras trabalham sistematicamente para tornar miseráveis aqueles cuja existência lhe são holofotes de sua própria banalidade; quem não se destaca na multidão encurva os mais altos pelo desamparo.
Marcos arfava na cama desconfortável, tão perturbadoramente perplexo quanto na noite anterior, quando fora dormir. Como nunca cobiçou o alheio a ponto de desejar derrubá-lo, nem nunca teve poder para tal, Marcos fora pego de surpresa – de novo, o que é pior – e isso o deixava bastante desconcertado.
Tendo tudo isso, todavia, passado em sua cabeça durante os 5 min que levou para o relógio tocar novamente, tal desconcerto inviabilizou seus movimentos voluntários e volitivos.
Ele pensou, então, no dinheiro; no pão, na carne, nas faturas e na gasolina… E levantou. Mas ainda não tinha vontade, de modo que, até certo ponto, estava dormindo: afinal, estão acordados os homens cujo desejo foi perdido? E como estava desconcertado, não julgava que acharia seu desejo durante os próximos dias, ainda que procurasse muito, de modo que teria de ir trabalhar sem ele…
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Engoliu um pedaço de pão sem apetite; tomou sua xícara de café sem apetite; pôs suas roupas sem apetite; ligou o veículo sem apetite; dirigiu até o trabalho sem apetite; estacionou sem apetite; entrou na empresa sem apetite. Mas, como cometeu o pecado trabalhista de dar bom-dia também sem apetite, acabou tirando o apetite da equipe de ficar perto dele. Pois o que é mais humano do que exigir sorrisos, sempre e de todos, mesmo quando nem todos têm, do dia, apetite? Assim, penitentemente isolado, pegou suas coisas e pôs-se a trabalhar de alma inerte. E de peito pesado, o dia ia engolindo-lhe em seco.
Estava, assim, vulnerável – e tão mais o estava quão mais inconsciente disso era. Senta em seu canto, cercado de seus afazeres e utensílios, mas, apesar da familiaridade do ambiente, não se sente seguro. Afinal, como todo indivíduo de uma espécie social, estando desligado do coletivo, estava exposto aos perigos de ficar fora do bando. Pois, ainda que artificial, a segurança da civilização parece ter o preço da conformidade.
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Ao longo daquele dia, Marcos foi lidando com as demandas como quem vê displicentemente prédios e outdoors passarem pela janela do ônibus, voltando, cansado e apático, para casa. “A missão de nossa empresa…” iniciava orgulhoso o gerente do setor que trabalhava, mas Marcos não absorvia o discurso; a mensagem era coerente e necessária diante dos desafios da empresa, mas nada parecia coerente e necessário para Marcos.
À medida que atendia as tarefas do dia, porém, algo de sabor chegou-lhe aos dedos: o prazer de fazer as coisas acontecerem. O poder do trabalho reside em aguçar os sentidos pela construção da realidade; a consumação dum “faço, logo existo”. O desejo, ainda perdido, curiosamente, afinal, estava ali, nalgum lugar.
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E então chegou a hora do almoço; apesar do apetite pelo dia ter sido perdido, como o café foi miserável, estava faminto (estomacalmente). Mas algo de infantil, curiosamente, lhe despertava um desejo de sair, de sentir o sol, e de vê-la – só podia encontrar com ela na hora do almoço, mas ela saia do almoço apenas mais tarde; precisaria aguardar, mas o faria de bom grado.
Após 20 min, veio ela: robusta, de coque e óculos, quase hexagenaria, de vestido na linha dos joelhos colado em suas pernas roliças e camisa de botões; sua visão nunca lhe decepcionava – a visão da amizade – que sempre desperta na gente o melhor da gente. Seu sorriso – o primeiro de Marcos naquele dia – foi seu “bom dia” a Odete. Ela veio em sua direção e logo lhe deu seu diagnóstico: questionou-lhe com os olhos “o que houve, Marcos?”, assim, com o rosto meio virado, os olhos curiosos, sobrancelha franzida e boca afetadamente grave. Afinal, quando um amigo pergunta o que há, é porque já percebeu que algo está errado.
Ele entendeu a pergunta vinda da alma da amiga, claro – afinal, tinha mais de 30 anos. Mas respondeu o óbvio e imaturo “não sei”, também com os olhos, olhando pra cima com um desvio de olhar, e ao desviar do céu para o chão; o “não sei” da auto ignorância angustiada e angustiante que refletia o pesado vazio que carregava a manhã toda.
“Claro que sabe” disse ela, ainda sem vocalizar, mas apenas com os lábios contorcidos e os olhos semicerrados, com o desprezo de quem aponta o óbvio ao mais jovem. As primeiras palavras que pronunciou, então e finalmente, foram: “é o pessoal do marketing, né?”. A pergunta lhe chegou tão maternal que Marcos teve muitas vontades: a de abraçar Odete, a de se sentar no meio-fio, a de praguejar, a de ir almoçar logo para se explicar a ela na fila do buffet e à mesa e todas estas vontades lhe despertaram simplesmente por sentir que a resposta era “sim”.
No entanto, à medida que iniciavam o trajeto em direção ao restaurante, Odete respondeu a pergunta por Marcos com um sonoro e ríspido “não”:
– Marcos, não t’ilude: o que tá te perturbando não é os outros ou o que eles pensam de ti. O que t’incomoda e tira tua paz é o jeito que tu te trata; é o jeito que tu enxerga tudo isso.
Apesar da mensagem fazer sentido a ele, Marcos não pôde digerir aquilo tão bem quanto sabia que digeriria a ala minuta. Ele então mastiga Odete com um “como assim?”, enquanto bebia seu suco de laranja azedo olhando concentrado para a amiga. Ela continua:
– Se tu acha que tu não presta, tua reação contra ti mesmo é de nojo. Tu é muito duro contigo mesmo, todo exigente… – ela olhava Marcos concentrada, com seriedade e compaixão – Quantas vezes já te falei isso? Essa perturbação toda que tu carrega vem desse desgosto que tu tem por ti mesmo, que tu só acha justo por que tu coloca uma roupa de “produtividade” e de “tentar se melhor a cada dia”. Mas repito, não te ilude: tua ansiedade – desculpa falar assim à mesa – vem de tu querer te vomitar a ti mesmo!
Marcos sorriu – pela segunda vez aquele dia: adorava a sinceridade da amiga; se viu de boca e alma cheias, mastigando o bife e as palavras amorosas e duras dela.
Seria isso? Sua angústia toda, de hoje e doutros tantos dias, provém da falta de amor próprio? Sua tristeza origina-se da ausência de sua própria autocompaixão? Não podia ser verdade. Essas perguntas relampejaram em sua mente, enquanto as negava.
Após terminarem a refeição, durante a qual Marcos procurou puxar outros assuntos, voltaram ambos à empresa a passos curtos e preguiçosos. Cruzado o portão da empresa, Marcos anunciou: “brigado, Dete”, ao que ela lhe retrucou: “não; sorria mais uma vez!”. Marcos sorriu, com os olhos brilhantes, achando graça da resposta da amiga. “Agora estamos quites”, ela completou, também com um sorriso, e deu um tapinha na lateral do ombro dele.
Marcos e Odete foram cada para seu lado; ele, agora, sem perceber, sorria ainda, lembrando da voz e das caretas da amiga durante o almoço. Ele não percebeu, mas tinha acabado de achar seu desejo – estava em seu bolso, quem diria!