Não é fácil ser eu;
E o pior? Só eu sei disso.
Porque somente eu conheço
Esse “eu” que só eu vejo
Mesmo por fora, diante do espelho,
Mirando minhas cores e as marcas da idade
Enfrentando, de frente, toda manhã,
Esta mesma face, que muitos encaram,
Mas que só eu sei o que esconde por dentro…
Não é fácil ser eu,
Como as rosas que planto quando não vingam
Pois o frio e o calor nos arrasam o corpo.
Mas ‘inda que as dores e as pétalas caiam
Eis nós em flor, quase o ano todo!
Com muito cuidado, muito esforço
Muita insistência, mesmo teimosa,
Uma hora elas vêm, e assim vou moldando
A mim e a elas, conforme acredito.
Não é fácil ser eu;
Não por ser vítima – não o sou de ninguém,
Apenas de mim, se o sou de alguém.
Minha história é simples e trágica
Sorri, chorei, amei, odiei
Casei, criei, cuidei, limpei…
Como tantos outros lá fora, vivi –
Assim imagino, pois só eles sabem
O quão difícil é ser eles.
Não é fácil ser eu,
Quando eles não entendem,
Pois, não sendo eu, o que sinto não sentem.
Eu sei! Eu esqueço, que não sendo eles,
Ainda que um dia passei o que passam,
Porque não sou eles, também não os entendo:
Minhas mãos, de moldar, vão travando
Minha mente, de imaginar, vai cansando
De moldar o meu mundo conforme eu o vejo.
Não é fácil ser eu,
Mas admito: sou linda, amada e amo – muito…!
Ainda qu’esse amor sem jeito extravase
Em mimos, ralhadas, sarcasmos e gritos
Abraçando, sorrindo, doendo e fingindo
Sem sono (sempre), sem paz (por vezes),
Trabalho vivendo e vivo cuidando,
A todos eu vejo e a mim ninguém vê,
Mas sou bem ciente: sem mim, ninguém vive…
Não é fácil ser eu,
Ainda que às vezes seja,
Como quando meus filhos eu vejo
Gorduchos, correndo e brincando,
Mesmo que às vezes o encanto
Se perca diante da imaturidade
Por vezes da deles, quando esquecem,
Por vezes da minha, quando ignoro
Que toda criança é assim mesmo…
Não é fácil ser eu –
E ele, bem sei, faz isso mais leve –
Mesmo que eu não admita
E com isso, por vezes, eu brinque,
A paixão que o mantém ao meu lado
É forte, antiga e persiste
A todo defeito, a todas as dores,
Que eu lance, eu sei, impiedosa
Por sobre os seus ombros já muito curvados…
Não é fácil ser eu
Mas sou assim mesmo,
Pois só eu mesma quem pode o ser.
Em meio às minhas rosas, meus filhos e homem,
Por sobre minhas dores, rascunhos e insônia
Por entre meus lutos, angústias e medos
Eu sigo a mim sendo, linda e fiel,
A mim e aos meus, que sempre me moldam
E permitem que eu, eu mesma, seja…
À irmã de minha esposa, por seus 40 anos, por seus 40 anos