Eis que, hoje, uma vez mais,
Nossos peitos são prensados
‘Té que a dor suba seu rumo:
Enrijece o coração e
Flui rasgando até a garganta
Co’a angústia que se sente…
Jorra, então, profusamente,
Pelos olhos de quem sofre,
Todo o amor que devotava
E o pavor de duvidar
De ter sido ele o próximo…
Eis que, hoje, toda mãe,
Confusa e apavorada,
Questiona, uma a outra,
O que é justo nessa vida…
Pois pecado nenhum tendo,
Foram com loucura e luto
Castigados assim mesmo…
Salgadas lágrimas brotam
Do vazio que ficou dentro e
Cristalizam como barras
Que nos prendem em desespero.
Eis que, hoje, todo pai,
Com raiva e medo, interroga
Até quando nossos filhos
Irão onde os nossos braços
Trêmulos e impotentes
Não os podem alcançar…?
Tantos anos lhes cuidando,
Ensinando e protegendo,
Pra que, assim, tão de repente,
Todo o zelo devotado
Se desfaça como vidro…
Eis que, hoje, junto às cruzes,
Nos convidam a aceitar
“Que a vida é assim mesmo”,
“Que essas coisas acontecem”...
As palavras como ondas
Batem contra o coração
Do pai privado de porquês…
Quem consolará a mãe
Ensurdecida no silêncio
Que irrevogavelmente
Terá agora de seu filho?
Eis que, hoje, desfaleço…
Rouco grito… até quando?!
Até quando suas covas
Ficarão, assim, abertas,
Sem cobri-las co’a justiça
E as respostas que merecem?
Até quando suas memórias
Ficarão, assim, restritas
Ao que um dia já fizeram
Sem que os sonhos que levavam
Mais memórias nos deem?
Eis que, hoje, só e em casa,
Se o teu quarto eu procurar,
Ou teu nome, então, chamar…
Ou as roupas, finalmente,
Ter coragem de dobrar…
Eu vou banhar, eu sei,
A tua alma nos meus olhos…
Coisas simples relembrar,
De outras mil me arrepender,
Sentindo meu colo vazio
E o meu ser desvanecer…
À minha irmã, pelo seu aniversário.