A foto acima é meramente ilustrativa; estamos localizando a foto de que fala o poema.
Há quarenta e quatro invernos,
Nascia pequena língua,
Aquela da três por quatro
Que mi’a mãe, na cabeceira,
Ostentava ao lado da gente.
Nascia, outrossim, sorriso –
Sem número, este, porém:
Pois fonte de risos nascera, de
Si mesma – e de tantos outros –
Fáceis, sinceros, festivos!
Nasciam, por fim, dois braços
Que, logo, apoio buscavam
Naqueles sofás da sala,
Com o mano indo atrás,
Protegendo a menininha…
Sim, nascera, mas não vi –
Como poderia tê-lo?
Apenas imagino,
Aquele doce serzinho,
Sendo Diana lá atrás.
***
E a língua amadureceu
Palavras, logo, domou e
Contou piadas e histórias;
Gritou, gargalhou, proseou,
Seja dentro ou fora de casa
E o sorriso se completou
Na dentição permanente
Por dentro e por fora d’alma
Intenso, vivo, sincero,
Singelo, perene e sereno.
E os braços, também, cresceram.
A ler, cedo, ensinaram-me;
A, sem rodinhas, pedalar;
De cortes e tombos salvaram-me;
E de amor, tantas vezes, cercaram-me…
Sim, cresceu, mas não vi –
Como pudera, estando ao lado?
Passara tão lento e tão rápido:
Aquela viva menina
Tornar-se, então, mãezinha.
***
E a língua acalmou e ensinou,
Chorou, gritou, repetiu…
Trabalhou atendendo,
Ofertando, vendendo –
Bordões no trabalho e em casa!
E o sorriso aprendeu a suster-se:
Aos filhos, ao homem e à mãe,
Cansado, mas verdadeiro.
A clientes, exausto, mas digno – e
Com piada, ao desligar…
E os braços, delgados, fortes,
Susteram mãe, filhos e homem,
Na fé e no afeto do abraço
No colo ou em leito enfermo,
Co’afago em cãs ou moleiras…
Sim, muito fez, mas não vi –
“Não”, digo, o suficiente –
Pois ‘inda que visto não tenha,
Senti nos frutos colhidos
Viçosos ao longo de anos
***
E a língua, após tanto invernos,
Ainda é a mesma da foto,
A mesma que me ensinou,
A mesma que muito atendeu,
E a todos nós muito ama.
E o sorriso ainda é o mesmo,
Largo, sincero e gostoso…
Que nos faz olhar diferente
Pr’aquilo que nos angustia,
E rir, também, de alma lavada.
E os braços – Ah! Os braços…
Que fortes abraços nos deram,
Queimando de sinceridade,
Se se chega aonde ela esteja,
Cheios de amor verdadeiro.
Sim, muito ela é – e eu SEI:
Pois ainda que muito não veja,
Eu sei bem de que ventre saiu;
Por isso com versos a amo
E a amarei enquanto eu viver…
À minha irmã, pelo seu aniversário.